7 de dezembro de 2012



Depois de meses sem escrever, volto com um poema que fiz uma noite dessas. Ele não tem nome, mas tem alma.


 
 
Cansei de esperar!
As rosas que deixei sobre a cama
Já feneceram, e estou sem forças
Para me levantar e fechar a cortina.
O sol já invade violentamente este quarto,
E as fotos que restaram já transformaram-se
Em cinzas junto com as poucas lembranças
Que eu fazia questão de salvar dentro de mim.

Amanheci na noite em que te encontrei,
Mas agora, resta-me beber as trevas
Da tua falta que enche cada espaço vazio,
Brota das paredes, mina do chão de carvalho
Como uma fonte de lembranças mortas e saudade.
Mais uma noite insone, mais alguns sonhos desfeitos,
Mortos...
E a sensação terrível de que me roubaram
Tudo o que eu era ao teu lado.

Juliano Cruz
16/11/2012 – 22:36h

25 de junho de 2012

Por que a vida surge de onde menos se imagina...




Ainda há vida

"Quem observasse de longe, julgaria que não mais havia vida ali, naquele corpo já velho. Há algum tempo, andava com dificuldades, apoiando-se numa bengala de madeira pesada que, muitas vezes, se mostrava insuficiente.
Na juventude, fora vaidosa. Sempre de unas esmaltadas, cabelos arrumados, vestidos elegantes, mas com certa sobriedade que davam à ela certa imponência. Da mãe, recebera a herança de uma casa num bairro nobre e os hábitos cristãos. Flertava com os rapazes e com a vida com a petulância de uma criança sem rédeas, porém, não se dava ao luxo de mergulhar numa paixão desmedida, pois acreditara piamente que o amor lhe bateria à porta do coração e lhe faria a vida sorrir com pontos de exclamação. E assim se fez!
Casou-se com o senhor Oliveira, que lhe deixou cedo, quando morreu num desastre. Deixara-a com um casal de filhos a educar. Quanta tristeza! Exausta de solidão, já velha, então, passava os dias diante da televisão. Deixava a porta da sala aberta, sob o pretexto de arejar a casa, que não era mais tão organizada quanto antes, afinal, deu-se ao luxo de deixar sua casa com a cara que achou necessária, mas na verdade, gostava era de reparar nas pessoas que passavam pela rua, os vizinhos que paravam para conversar.
Foi numa noite quente, no fim da primavera, que voltando da igreja acompanhada da filha que se deu o fato extraordinário. Em seu vestido sóbrio de idosa, caminhando com o braço direito apoiado ao braço da filha – companheira fiel – que aquela simpática senhorinha mostrou o resquício de vida que ainda lhe enchia o peito de ar fresco, como uma lufada logo pela manhã. Caminhando pela calçada plana, auxiliando-se de sua bengala, a senhora Ofélia rompeu o silêncio daquela caminhada que, para alguns teria demorado o tempo de toda uma vida:
- O Seu João não passou por aqui hoje! Será que o velhinho está bom? (Silêncio)
E não houve resposta. Certamente, dona Ofélia se contentou magnanimamente com o silêncio eloqüente da filha e calou-se, também, como se a vida lhe fosse estancada ali.
E por um instante, Ofélia deixou transparecer que por debaixo daqueles óculos de grossas lentes, independentemente da velha e tosca bengala e do seu vestido sóbrio, havia ainda um rio de vida a correr caudaloso por seu interior.
As duas mulheres continuaram a caminhar, seguindo seu caminho rumo à casa das portas abertas, onde o cheiro do café impregnava os quartos toda manhã.
Ninguém se dá conta da vida que pulsa feroz em meio ao que, tantas vezes, já perdeu a beleza; ninguém fala nada. Nem mesmo a filha de dona Ofélia disse, porém, vai-se percebendo, ao longo do caminho, que até mesmo sob os escombros de vida que restaram por cima de nós, existe afeto. Sempre existe uma folha verde que cresce entre o concreto acinzentado e que dá, certamente, novo ânimo a quem vê". (Juliano Cruz – 07/12/2011 – 23:54h)


24 de junho de 2012

Não sei ou não me lembro exatamente como o texto que segue chegou em minhas mãos, haja vista que acabeid e reencontrá-lo numa pasta do computador. Porém, achei-o de uma verdade incrível e, por isso, quis postar para que mais gente tenha acesso a ele, muito embora, acho que quase ninguém passe por aqui. Aliás, nem eu tenho passado tanto quanto gostaria/deveria). Espero que apreciem.

Arrebentação - Dialogando com 'Viva a Carambola' de Silva Alves

"Eu não vou mais me apequenar para caber no mundo. Não vou deixar de ir ao baile pela ausência do traje adequado e, lamento, mas daqui pra frente, nada de sorrisos disfarçados. Ah, e tem mais: eu não vou pedir desculpas pela cor dos meus sapatos.
Os meus métodos e a medida dos meus quadris são a minha identidade. Eu não vou mais ser discreta e nem varrer os sonhos pra debaixo do tapete. Eu não sou um currículo e não vou mais me esmagar pra encaixar meu corpo dentro de um uniforme. Eu não nasci de uma forma, de um molde. Eu tenho um nome e quero ser chamada por ele.
Eu não vou mais me acabrunhar. Não vou abrir mão da minha vez, do meu voto, do meu lugar. Nem vou mais refugiar os olhos no breu das pálpebras quando me encaram. Eu quero mais é revidar, me agigantar, reconhecer minha sombra no chão e apreciar a dimensão e a forma que ela toma por onde passo.
Eu não vou mais terminar as coisas com pontos finais, nem vou suspender minhas declarações de amor no fundo falso do céu da minha boca. Não viver me deixa muito cansada. Eu não vou mais pedir licença para existir, nem vou me desculpar pelos meus vícios, pelas roupas que uso ou pela p. da cor que eu escolho para os meus calçados.
A minha essência prevalece abrindo os braços, se espreguiçando, rebentando o mundo com seus centímetros a mais. Eu me recuso a andar pra trás. Lagarta que se transmuta em borboleta não volta pra dentro da caixa; Menino que se infinita em luz, ninguém ofusca; Cigarra que se assume quando canta, vira canção..."

21 de abril de 2012

Tantas lembranças...

Noite chuvosa de sábado, com um bom friozinho (já não era sem tempo), em Araaquara. Tantas lembranças me vieram à memória com a música cuja letra posto abaixo. 

Completamente Blue
 
"Tudo azul, completamente blue.
Vou sorrindo, vou vivendo.

 Logo mais, vou no cinema.
 No escuro, eu choro
 E adoro a cena.
 Sou feliz em Ipanema,
 Encho a cara no Leblon
 Tento ver na tua cara, linda
 O lado bom.

 Como é triste a tua beleza
 Que é beleza em mim também,
 Vem do teu sol que é noturno
 Não machuca e nem faz bem.
 Você chega e sai e some
 E eu te amo assim tão só.
 Tão somente o teu segredo
 E mais uns cem, mais uns cem.
 Tudo azul, tudo azul.
 Completamente blue.
 Tudo azul.

 Como é estranha a natureza
 Morta dos que não têm dor,
 Como é estéril a certeza
 De quem vive sem amor, sem amor.
 Mas tudo azul, tudo azul, tudo azul
 Completamente blue".
(Cazuza) 

 P.S.: A imagem é de um quadro do Picasso, pintado na fase azul. O quadro chama-se A Refeição do Cego.

10 de abril de 2012

Indigência


O que segue é um trecho de um conto que escrevi há alguns dias. Na verdade, iniciei o conto com o escrito abaixo, mas não me senti à vontade para postá-lo na íntegra, posto que eu ainda não o entendo bem. É um mistério. Saí ligeirmente do hábito de colocar data e hora, mas lembro-me que foi numa madrugada de domingo par segunda-feira, ouvindo uma chuva quase violenta chocar-se contra minha janela.

"...estou relutante quanto a escrever o que se passa em minha mente nesta hora. Não sei bem como isso se dará, ou mesmo se realmente tenho coragem de expor o que tem tomado forma e se debatido há alguns dias dentro de mim, pois escrever, muitas vezes, ou mesmo dizer algo, é também se expor à uma realidade tão gritante e tão silenciosa em nós que chega a dar medo. Estou receoso.
De qualquer modo, penso ser melhor começar assim, falando acerca de como me sinto, como um preâmbulo, uma introdução, do que simplesmente começar a descrever o que se passa, até porque, sinto como se a “coisa” em mim ainda não tivesse forma definida, de modo que até penso que seja cedo para tentar fazer nascer este “filho” de minhas entranhas. Não o quero nascido a ferro; quero retirá-lo das minhas vísceras e da minha alma de modo natural, porém, temo que posso deixá-lo morrer e afogar-se em si mesmo se não tomar a atitude drástica de trazê-lo à tona. Na verdade, só de pensar na dor que o que segue poderá causar-me, sinto o estômago contrair-se dentro em mim como numa indigestão, até porque é indigesto para mim, como a vida tem sido desde que me entendo por gente. Sou gente? O que leva alguém a julgar-se pessoa, a julgar-se humano? O que é um humano? Como existir nisso que se denomina vida e ser um humano? São tantas dúvidas e nenhuma resposta. O que hoje se faz pergunta, amanhã já nem existe, pois o que se pergunta hoje é respondido amanhã, e a pergunta do presente torna-se, já, passado.
Estou protelando o nascimento. Sinto que agora já é hora. Está pronto; tomou forma e já começa a nascer pelas pontas dos meus dedos". (...)

P.S.: O conto se chama Vulto de Humanidade.

14 de março de 2012

Vivas à Poesia!


Com o intento de homenagear o dia da Poesia, vamos nos emocionar com um poema daquele que escreveu os versos mais perfeitos da Língua Francesa: Arthur Rimbaud (1854-1891).

A ETERNIDADE

"De novo me invade.
Quem? – A Eternidade.
É o mar que se vai
Como o sol que cai.

Alma sentinela,
Ensina-me o jogo
Da noite que gela
E do dia em fogo.

Das lides humanas,
Das palmas e vaias,
Já te desenganas
E no ar te espraias.

De outra nenhuma,
Brasas de cetim,
O Dever se esfuma
Sem dizer: enfim.

Lá não há esperança
E não há futuro.
Ciência e paciência,
Suplício seguro.

De novo me invade.
Quem? – A Eternidade.
É o mar que se vai
Com o sol que cai".

20 de fevereiro de 2012

Sob os escombros...


Há alguns dias, mexendo numa pasta de documentos, achei uma folha de papel onde estava escrito o poema transcrito abaixo. Eu o escrevi numa fase não tão boa da minha vida; fase essa da qual não tenho saudade, mas também não odeio. Acho que estou reconciliado com ela...

Ruínas

"O coração sacudi-se violentamente em meu peito.
E das lágrimas incontidas fez-se um
Silêncio sepulcral, quase imaculado.
Me fiz triste ao perceber que teus
Braços não eram mais meu refúgio,
Nem teus olhos meus repouso, minha paz.
Ah, até quando a vida fará
Questão de maltratar meu peito
Já tão dilacerado pelas dores de sempre?
As esperanças miseráveis que eu construíra
Estão sob os escombros da confusão que
Há em mim...restam apenas ruínas!
Ruínas dos sonhos que se desfizeram;
Das certezas que evaporam sob o sol da primavera;
Do amor que foi só ilusão e me
Matou com suas verdades tétricas".


Juliano Cruz
(04/11/2009 – 21:35h)

15 de fevereiro de 2012

O Nome da Saudade


"Se saudade tem um nome, Amor,
Esse nome é o teu.
Abri a você meu mundo, que
Agora não está vazio, mas
Transbordante de tua ausência.

E tento te encontrar nas ruas
Desertas, roxas do ipê.
Ando pelos bares,
Em meio aos carros velozes
E nada vejo além de tua falta.

Tudo o que há em mim
Grita pelo que há em você;
Meus olhos procuram pelos
Teus olhos. Minha lânguida carne
Grita pelo calor de teu abraço que
A vida faz questão de mo negar".
Juliano Cruz
(09/02/2012 – 13:40h)

13 de fevereiro de 2012

"Todo amor um dia chega ao fim..."


Ontem, meu grande amigo Marcos me indicou um texto de Paulo Mendes Campos acerca do amor e de como ele termina. Achei-o belo e cheio de sentido - pelo menos pra mim - de modo que o posto, agora, para quem o quiser ler.

O Amor Acaba

"O amor acaba. Numa esquina, por exemplo, num domingo de lua nova, depois de teatro e silêncio; acaba em cafés engordurados, diferentes dos parques de ouro onde começou a pulsar; de repente, ao meio do cigarro que ele atira de raiva contra um automóvel ou que ela esmaga no cinzeiro repleto, polvilhando de cinzas o escarlate das unhas; na acidez da aurora tropical, depois duma noite votada à alegria póstuma, que não veio; e acaba o amor no desenlace das mãos no cinema, como tentáculos saciados, e elas se movimentam no escuro como dois polvos de solidão; como se as mãos soubessem antes que o amor tinha acabado; na insônia dos braços luminosos do relógio; e acaba o amor nas sorveterias diante do colorido iceberg, entre frisos de alumínio e espelhos monótonos; e no olhar do cavaleiro errante que passou pela pensão; às vezes acaba o amor nos braços torturados de Jesus, filho crucificado de todas as mulheres; mecanicamente, no elevador, como se lhe faltasse energia; no andar diferente da irmã dentro de casa o amor pode acabar; na epifania da pretensão ridícula dos bigodes; nas ligas, nas cintas, nos brincos e nas silabadas femininas; quando a alma se habitua às províncias empoeiradas da Ásia, onde o amor pode ser outra coisa, o amor pode acabar; na compulsão da simplicidade simplesmente; no sábado, depois de três goles mornos de gim à beira da piscina; no filho tantas vezes semeado, às vezes vingado por alguns dias, mas que não floresceu, abrindo parágrafos de ódio inexplicável entre o pólen e o gineceu de duas flores; em apartamentos refrigerados, atapetados, aturdidos de delicadezas, onde há mais encanto que desejo; e o amor acaba na poeira que vertem os crepúsculos, caindo imperceptível no beijo de ir e vir; em salas esmaltadas com sangue, suor e desespero; nos roteiros do tédio para o tédio, na barca, no trem, no ônibus, ida e volta de nada para nada; em cavernas de sala e quarto conjugados o amor se eriça e acaba; no inferno o amor não começa; na usura o amor se dissolve; em Brasília o amor pode virar pó; no Rio, frivolidade; em Belo Horizonte, remorso; em São Paulo, dinheiro; uma carta que chegou depois, o amor acaba; uma carta que chegou antes, e o amor acaba; na descontrolada fantasia da libido; às vezes acaba na mesma música que começou, com o mesmo drinque, diante dos mesmos cisnes; e muitas vezes acaba em ouro e diamante, dispersado entre astros; e acaba nas encruzilhadas de Paris, Londres, Nova York; no coração que se dilata e quebra, e o médico sentencia imprestável para o amor; e acaba no longo périplo, tocando em todos os portos, até se desfazer em mares gelados; e acaba depois que se viu a bruma que veste o mundo; na janela que se abre, na janela que se fecha; às vezes não acaba e é simplesmente esquecido como um espelho de bolsa, que continua reverberando sem razão até que alguém, humilde, o carregue consigo; às vezes o amor acaba como se fora melhor nunca ter existido; mas pode acabar com doçura e esperança; uma palavra, muda ou articulada, e acaba o amor; na verdade; o álcool; de manhã, de tarde, de noite; na floração excessiva da primavera; no abuso do verão; na dissonância do outono; no conforto do inverno; em todos os lugares o amor acaba; a qualquer hora o amor acaba; por qualquer motivo o amor acaba; para recomeçar em todos os lugares e a qualquer minuto o amor acaba".

31 de janeiro de 2012

Divagações de um insano...


"Às vezes, tenho a impressão de estar vivendo uma vida que não é minha. É estranho até pra mim mesmo, mas preciso dizer que tenho a impressão de observar minha vida do lado de fora dela, de modo que me parece ter sido lançado nela, que já estava pronta, pré-moldada. É como se eu fosse acompanhando cada episódio dessa vida através de um vidro consideravelmente grosso, que me impede de tocá-la e tomar suas rédeas às mãos.
Me sinto estranho. Me sinto um estranho em mim mesmo. Há dias em que olho-me no espelho – quando consigo olhar – e tenho a impressão de não me conhecer, não saber quem sou. Às vezes, chego a esboçar um diálogo com a imagem, mas logo se evanesce...não consigo mais falar, pensar ou ter qualquer outra ação diante do que, supostamente, sou eu.
Queria ter a fortuna de me decifrar, de descobrir o que, realmente existe em mim que não está em consonância com o restante e que me faz enxergar a vida tão cinza, tão insípida...desisti de tentar chorar, de tentar ser amado. Desisti de tanto que já não sei se é uma desistência ou uma preservação de mais desgastes, posto que tudo em mim tem um peso maior do que o comum.
E meus olhos oceânicos já não disfarçam mais o desgosto; meus ouvidos já negam a ouvir tantas mentiras disfarçadas de verdade e minha alma, apesar da secura dos olhos, derrama-se úmida de tanta tristeza. Sim! Os olhos estão secos, mas por dentro, a alma – que transcende os poros – está úmida de tristeza e chora em silêncio, quando espero todos irem dormir e apago a luz do quarto...(31/01/2012 – 22:07h)".

11 de dezembro de 2011

Recomeçando...


Depois de algum tempo sem nada postar por falta de tempo, voltei! E, para recomeçarmos, vamos de Manuel Bandeira (influência do meu queridíssimo amigo Roney Costa).
Antes de perguntarem sobre a foto: para quem não sabe, o Taj Mahal é um mausoléu, que alguém construiu para guardar os restos mortais da mulher que amava.

Arte de Amar

"Se queres sentir a felicidade de amar, esquece a tua alma.
A alma é que estraga o amor.
Só em Deus ela pode encontrar satisfação.
Não noutra alma.
Só em Deus - ou fora do mundo.

As almas são incomunicáveis.

Deixa o teu corpo entender-se com outro corpo.

Porque os corpos se entendem, mas as almas não."

(Manuel Bandeira)

26 de outubro de 2011

Para Bille e Charlotte...


Protelando...

"Quando eu tinha sete anos, tive caxumba. Era o final de uma manhã de novembro, e eu estava impossibilitado de fazer muitas coisas por conta daqueles nódulos que se inflamaram no meu pescoço. Estava tristíssimo, pois a vida já havia me negado tudo e me roubado o pouco que restava também. A exaustão já me havia tomado de uma tal maneira que eu comecei a desenhar com lápis colorido num papel qualquer, pra ver se o céu do meu mundo ficava mais azul, ou se o sol ganhava novas cores que valessem a pena. Mas foi no final dessa manhã ensolarada de novembro que minha tia Sandra chegou da faculdade, animadíssima, como se a vida lhe houvesse sorrido com pontos de exclamação.
- O seu Zezinho está no portão da casa dele distribuindo cachorrinhos; Neusa – disse ela à minha mãe, os meninos podem pegar um?
Minha mãe, relutante, acabou permitindo, muito embora dissesse que nós teríamos que cuidar dele. Recomendou que escolhêssemos um macho, senão, nada feito! Enchi-me de uma importância e, como se eu fosse um homem feito, abri o portão e fomos os três – minha tia, meu irmão e eu – rumo à casa onde o evento estava acontecendo. Meu irmão, eu não sei, mas sempre quis ter um bicho e descobri, logo de início, que um cachorro seria essencial à minha felicidade!
Imediatamente, escolhemos o pequeno canino que tinha apenas duas semanas. Caminhamos pela calçada até chegarmos em casa e, em prazo de um quarteirão, cheguei a um ponto do amor quase sombrio, de tão desconhecido que ele me era. Eu mal havia tocado naquele cachorrinho que chorava muito, mas já o amava com um amor quase soberbo, pois sabia que ele seria meu amigo. Ao chegarmos em casa, pegamos uma caixa de papelão, forramos com uma toalha e já fomos providenciar um pires de leite para ele, pois nem sabíamos como se cuidava de um cachorro. Era desengonçado, andava todo torto, mas eu já o amava e sabia que seria meu melhor amigo para sempre, como se eu o conhecesse desde meu nascimento.
O tempo foi passando e eu no fundo, sabia que, algum dia, o Bille iria ter que morrer. Ficou conosco oito anos e tinha cara de lobo; era bravo, latia muito mas nem tinha raça! O que importava? A raça é o de menos quando se tem amor! Quando ele morreu, chorei muito. Senti que ia com ele um pedaço importante de mim; era como se um sonho de felicidade estivesse se estilhaçando ali. Morreu com ele uma parte de mim.
Poucos meses depois, trouxe Charlotte para casa. Já não morávamos mais com minha avó, e eu insisti novamente pela pobre cachorrinha rejeitada pela mãe. Eu a trouxe.
O mais engraçado é que eu sabia, de inicio, que um dia Charlotte também morreria. Entendi no momento em que coloquei o leite pra ela no pires pela primeira vez, que eu estava apenas protelando um sofrimento sem saber por quanto tempo. Sabia que ela teria de morrer e que mais um pedaço de mim morreria junto.
Senti, de súbito, um nó na garganta, uma lágrima rolou de meus olhos. Era julho e fazia frio. Fim de tarde. No final agoniante das contas, vivi treze anos de aflição, protelando o sofrimento que a morte de Charlotte iria, certamente me causar. Dito e feito!
Primeiro a descoberta de uma doença tenebrosa, depois, assistir inerte, impotente a minha amiga fiel definhar lentamente.
No dia em que ela teve que ser morta, olhei-a uma última vez, passei-lhe a mão carinhosamente sobre a cabeça e disse-lhe que estava tomando aquela atitude por não achar justo vê-la sofrer. Ela me olhou nos olhos, como se desejasse me dizer que entendia. Chorei – coisa que eu já estava a fazer há dias – e fui trabalhar, me dando o direito de não presenciar o ato. Era setembro.
Desde então, nunca mais peguei animais para criar e sinto falta deles. Não penso que deixei de protelar certas dores. Muito pelo contrário: tem certas dores que preciso viver, das quais não posso fugir, mas vou protelando ao não querer entrar em contato.
Hoje protelo a dor de me apaixonar, protelo a dor de amar alguém, protelo a dor de me decidir por algo em detrimento de outro.
Penso, na verdade, que só mudam as dores, as circunstâncias, mas está sempre ali. A moldura pode até mudar, mas se a pintura é a mesma, ainda continua sendo o mesmo quadro. Assim é a dor. Pode-se mudar sua moldura, a parede onde se há de pregar o quadro, mas ainda assim, sempre será um quadro. Pode-se mudar a ocasião, o motivo, mas ainda assim, sempre será a dor". (Juliano Cruz – 10/09/2011 – 00:46h)


P.S.: A foto mostra Charlotte nos dias finais de sua vidinha...

11 de outubro de 2011

"Um amigo é a metade de uma alma"

Ao meu amigo
(Para G.)

"Era madrugada qualquer...quase tediosa.
Diante de mim, apenas o computador ligado
E mil quimeras todas sepultadas, sem que
Eu tivesse a chance de tentar o contrário.
Uma conversa se inicia: apresentações, leveza e
Afinidades que iam se atraindo.
O que houve, ao certo?
Não sei e nem pretendo!
Mas sei que a partir de agora
Um novo amigo faz parte de minha história.
Caminha comigo, distante e próximo.
Eu não o conheci nessa madrugada,
Apenas o reconheci, porque era como
Se eu o procurasse, sem saber que ele existia!"

Juliano Cruz
11/10/2011 – 18:21h

P.s>: Não encontrei uma imagem que pudesse falar a respeito de amizade e que coubesse nesse post.

3 de setembro de 2011

Claro como um enigma...


"Há quem diga que quanto maior é o vôo, muito maior é a queda. Desde que meu mundo é mundo, a minha vida foi alçar altos vôos para, logo em seguida, eu sofrer a queda terrível da alma! Não sei bem como explicar, mas é como se minha alma passasse, constantemente, por uma experiência de morte. Reformulando: é como se minha alma passasse continuamente pela experiência de ter que morrer.
Hoje, por exemplo, sinto por dentro como que um frio no estômago, igual àqueles que se tem quando se toma um susto. No fundo, acho que nascer me assustou de tal forma que tenho, em tempo integral, a impressão de estar num sobressalto, como se eu acordasse no meio da noite com o telefone tocando escandalosamente, ou como se alguém me espreitasse atrás de uma porta para, quando eu estiver passando, me assustar com um grito ou um movimento brusco demais.
E vivo assim: assombrado, sobressaltado, sem muita noção de quem sou e me assustando a cada detalhe meu que se revela ao longo dos dias! Me assusta, muitas vezes, descobrir quem sou de verdade; me amedronta saber do que sou capaz, e de até que ponto do amor eu posso ir.
Fico pensando, me repensando, e vejo que nada sei de mim, que sou um mistério insondável, um enigma que não se revela, mas que me parece tão claro..."

(Juliano Cruz – 03/09/2011 – 00:04h)

27 de agosto de 2011

Quase uma certeza...


"Não sei o que vi nos teus olhos
Que em outros olhos não vi.
E me senti completo ao me ver
Refletido em tuas pupilas, Amor.
M as já agora, não sei o que há,
Que não consigo mais me encontrar
Em teus profundos olhos de mar.
Outras coisas, agora, compões
Teu olhar; outras direções
São alvo do teu querer.
Sinto já não mais haver
Espaço para mim na doçura
Dos teus olhos inquietos.
Vou retirar meu olhar do teu,
E procurar um olhar onde
O meu possa se perder
E aí descansar".

Juliano Cruz
26/08/2011 – 23:59h

22 de agosto de 2011

O óbvio precisa ser dito!


A Gente Se Acostuma

"A vida, segundo penso, não deveria ser vivida do jeito que se vive. Existe tanta coisa genuína para nos satisfazer o espírito, mas nossa visão se entorpece por aquilo que é efêmero, que se liquefaz com avidez e muita facilidade; por aquilo que se evanesce num piscar de olhos. Acabamos por nos acostumar Ao que é fútil, ao que é rápido, sem valor, e esquecemos de prestar atenção às mínimas coisas que podem compor a nossa tão almejada felicidade. Não reparamos mais nos gestos simples, nos momentos únicos ao lado de quem a gente ama; não sabemos mais apreciar uma boa conversa, ou mesmo nos deleitar na leitura de um bom livro. Tudo é pra ontem, tudo exige rapidez; tudo é urgente, tudo tem que estar dentro do tempo.
A gente se acostuma. Não devia, mas se acostuma a viver sob a pressão dos ponteiros que correm não mais velozes, pois o tempo continua seu curso normal, nós é que assumimos coisas demais, responsabilidades demais, preferindo anular a nossa vida, os nossos relacionamentos em prol de uma realização que costuma ser tão rasa, tão tênue que não altera quase nada em nossa vida. A gente se acostuma à idéia de que ser feliz é ter tudo, é não sofrer com as negações da vida. A gente se acostuma a ver incutirem em nossos filhos a idéia mentirosa de que a vida é sempre um pôr-do-sol dourado no horizonte, e tira deles a responsabilidade pelos próprios atos. A gente se acostuma a permitir que entupam o cérebro de nossas crianças com tudo que existe de fútil e banal. A gente não devia, mas se acostuma.
A gente se acostuma a achar que o padrão imposto por não sei quem é o que se deve seguir. Que é necessário ter um corpo esculturalmente musculoso, definido, todo de acordo com os corpos que a internet e a televisão vomitam em nossos lares. A gente se acostuma a ver as violências morais, psicológicas e físicas e não faz nada, porque perdeu-se a capacidade de compaixão; a gente nãos abe mais se compadecer porquê acha que ninguém é digno de pena, de dó, de compaixão. A gente se acostuma a ver a gastar dinheiro com tanta coisa, com tanta bobagem e a reclamar que a vida está difícil, que o dinheiro não dá.
A gente não devia, mas se acostuma a investir em relacionamentos sem futuro, que vão nos machucar, previsivelmente. A gente se acostuma a investir em pessoas que não darão a reciprocidade necessária, que não optarão por nós como optamos por eles. A gente se acostuma a dar amor a quem não o merece, a dar atenção a quem não a fez por merecer. A gente se acostuma a anular os sonhos, a varrê-los pra debaixo do tapete pra realizar o sonho do outro, pra angariar a afeição do outro, enquanto o outro não pensa em aniquilar a si próprio por nós. A gente se acostuma a esperar demais das pessoas; se acostuma às decepções que isso traz. Se acostuma a ser apunhalado, a sofrer calado, a amar em silêncio, a calar a nossa voz, a não dizer nada, a viver miseravelmente uma vida que não precisaria ser assim em nome de uma fé, de uma boa educação que nada tem a ver.
Infelizmente, a gente se acostuma. Não deveria, mas se acostuma a não mais abrir a janela, a não mais sorrir, a não mais conversar com as pessoas. A gente vive o nosso mundinho, com nossos fones de ouvido, com nossos celulares, com nossa luz artificial, com nossos deliverys e fast-food. A gente se acostuma a preservar tanto a individualidade que as relações reais estão agonizando, definhando em nome de uma popularidade medíocre numa rede social. A gente se acostuma à felicidade de balada, de um dia de sol, e acha que a vida é só isso. A gente já se acostumou a não ler, a não se envolver, a calar nossa voz. E vamos morrendo aos poucos, afundados nesse mar revolto que é a vida, porque não somos capazes de nos acostumar à idéia da morte".
(Juliano Cruz - 22/08/2011 - 00:15h)

19 de agosto de 2011

Náusea matutina...


Após praticamente um mês sem escrever e sem postar nada devido à grande falta de tempo e inspiração, volto a partilhar com vocês um poemazinho bem medíocre que acaba de ser escrito. Sintam-se à vontade para dizer que é muito, mas muito ruim!

Espelho

"Olhei furtivamente minha imagem
Refletida no espelho do banheiro
Das paredes impecavelmente brancas.
Não me reconheci: era um estranho
Diante de mim, porquê não sou eu mesmo,
Mas sou possuído por muitos,
Que tantas vezes nem nomes possuem.
Não sei se o que vi refletido era a verdade,
Mas para mim, nesta manhã insólita,
O que menos importava era saber
Se era a verdade pura e simples,
Ou uma verdade inventada".
Juliano Cruz
19/08/2011 – 00:00h


21 de julho de 2011

Ah...


Ah...a dor de existir; o peso de (não) sentir!

"Eu não escrevo em português. Escrevo eu mesmo".
(Fernando Pessoa)

19 de julho de 2011

Onde será que fica o "pause" da vida?


Ausente de mim...
"Às vezes me acontece, e toda vez que me acontece, acontece tão subitamente como se evanesce, de sentir na alma um peso tão grande da vida que minha vontade, se me fosse possível, seria a de me ausentar de mim mesmo e ficar num modo como “em suspenso” por algum tempo para depois poder retornar a mim mesmo.
Hoje é um dia assim. O peso da vida já foi e voltou tantas vezes à minha alma que ao olhar-me no espelho, ainda há pouco, tive a sensação de estar cinza, como a nuvem de poeira que paira sobre a cidade nestes dias estranhos e áridos de inverno, que mais parecem um verão desértico. O ar tornou-se para mim de um amarelo tosco e desbotado, e a respiração ficou difícil, tamanho era o incômodo que a vida me infligia. Nada aconteceu para tal, mas creio que essa seja uma condição sine qua non de viver. Talvez o meu modo de vida, a minha essência esteja fadada a sentir esse peso sempre que a vida se dá ao luxo de o dar a mim.
Sim, realmente o dia está cinzento para mim hoje. Não que os outros dias tenham cores quentes e vivas, mas o cinza de hoje está mais denso, mais nebuloso que o cinza dos outros dias ditos “normais”. Aliás, creio que os dias cinzas sejam normais; os dias cheios de cores são a exceção e muitos, talvez, se enganam ao pensar que estão sendo felizes por...(?)
Na verdade, não tenho a mínima pretensão de dizer a quem quer que seja o que vem a ser a felicidade. Cada um sabe de si e, antes que minha mente resolva questionar-me, já adianto que eu não sei de mim. De mim só sei que não sou, estou sendo. Geralmente à duras penas, respirando a secura deste ar amarelado e espesso, neste mundo que só se faz inospitalidade e solidão.
Não penso que o que escrevo seja uma visão pessimista das coisas. Na verdade, creio que esta é a minha realidade interna e o mínimo que preciso é ser respeitado. Ninguém é obrigado a gostar mas respeito, aqui neste ponto, é fundamental. Não era assim que eu queria que fosse, mas eu também sou obrigado a me aceitar e respeitar". (19/07/2011 – 16:40h)

10 de julho de 2011

A gente se acostuma...


Há alguns dias li este texto por indicação de um conhecido. Achei oportuno postá-lo e compartilhá-lo com quem passar por aqui. É um texto bem reflexivo. Espero que gostem e que ajude a repensar em algumas coisas como me ajudou.

Eu sei, mas não devia (Marina Colasanti)

"Eu sei que a gente se acostuma. Mas não devia.
A gente se acostuma a morar em apartamentos de fundos e a não ter outra vista que não as janelas ao redor. E, porque não tem vista, logo se acostuma a não olhar para fora. E, porque não olha para fora, logo se acostuma a não abrir de todo as cortinas. E, porque não abre as cortinas, logo se acostuma a acender mais cedo a luz. E, à medida que se acostuma, esquece o sol, esquece o ar, esquece a amplidão.
A gente se acostuma a acordar de manhã sobressaltado porque está na hora. A tomar o café correndo porque está atrasado. A ler o jornal no ônibus porque não pode perder o tempo da viagem. A comer sanduíche porque não dá para almoçar. A sair do trabalho porque já é noite. A cochilar no ônibus porque está cansado. A deitar cedo e dormir pesado sem ter vivido o dia.
A gente se acostuma a abrir o jornal e a ler sobre a guerra. E, aceitando a guerra, aceita os mortos e que haja números para os mortos. E, aceitando os números, aceita não acreditar nas negociações de paz. E, não acreditando nas negociações de paz, aceita ler todo dia da guerra, dos números, da longa duração.
A gente se acostuma a esperar o dia inteiro e ouvir no telefone: hoje não posso ir. A sorrir para as pessoas sem receber um sorriso de volta. A ser ignorado quando precisava tanto ser visto.
A gente se acostuma a pagar por tudo o que deseja e o de que necessita. E a lutar para ganhar o dinheiro com que pagar. E a ganhar menos do que precisa. E a fazer fila para pagar. E a pagar mais do que as coisas valem. E a saber que cada vez pagar mais. E a procurar mais trabalho, para ganhar mais dinheiro, para ter com que pagar nas filas em que se cobra.
A gente se acostuma a andar na rua e ver cartazes. A abrir as revistas e ver anúncios. A ligar a televisão e assistir a comerciais. A ir ao cinema e engolir publicidade. A ser instigado, conduzido, desnorteado, lançado na infindável catarata dos produtos.
A gente se acostuma à poluição. Às salas fechadas de ar condicionado e cheiro de cigarro. À luz artificial de ligeiro tremor. Ao choque que os olhos levam na luz natural. Às bactérias da água potável. À contaminação da água do mar. À lenta morte dos rios. Se acostuma a não ouvir passarinho, a não ter galo de madrugada, a temer a hidrofobia dos cães, a não colher fruta no pé, a não ter sequer uma planta.
A gente se acostuma a coisas demais, para não sofrer. Em doses pequenas, tentando não perceber, vai afastando uma dor aqui, um ressentimento ali, uma revolta acolá. Se o cinema está cheio, a gente senta na primeira fila e torce um pouco o pescoço. Se a praia está contaminada, a gente molha só os pés e sua no resto do corpo. Se o trabalho está duro, a gente se consola pensando no fim de semana. E se no fim de semana não há muito o que fazer a gente vai dormir cedo e ainda fica satisfeito porque tem sempre sono atrasado.
A gente se acostuma para não se ralar na aspereza, para preservar a pele. Se acostuma para evitar feridas, sangramentos, para esquivar-se de faca e baioneta, para poupar o peito. A gente se acostuma para poupar a vida. Que aos poucos se gasta, e que, gasta de tanto acostumar, se perde de si mesma"
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